quinta-feira, 10 de maio de 2012

Ampliando a corrente

        Em tempos em que sustentabilidade é a palavra de ordem, não basta saber, tem que colocar em prática. Tenho visto muita gente que já tem como hábito separar o lixo, economizar água — nesse quesito, muitos filhos estão reeducando os pais com as informações que recebem na escola —, descartar pilhas e óleo de cozinha nos locais apropriados, deixar mais o carro na garagem, dando prioridade a outros meios de transporte, inclusive a bicicleta, ser mais seletiva na hora de consumir. Dos livros, das revistas, das campanhas na TV, as palavras vão virando ação nas empresas, nos lares, nas ruas.
        Tão importante quanto reduzir o consumo é consumir de maneira consciente, procurando saber mais detalhes dos produtos, como, por exemplo, a origem, a mão de obra utilizada e o processo de produção. Você gostaria de saber que um produto que comprou utilizou madeira certificada, assim como não gostaria de saber que ele foi feito com mão de obra escrava e que o seu processo de fabricação é muito mais nocivo ao meio ambiente do que você imaginava.
        Como uma mãe que ensina o filho a tomar banho, escovar os dentes e dar bom dia, o consumidor ensina ao fabricante que tipo de produto ele deseja consumir e o que ele não tolera nesse processo. Ele é a razão de ser daquele produto, portanto, tem poder de determinar caminhos.
        A Asta me encanta nesses aspectos, pois reúne todas essas qualidades, do começo ao fim. Os tecidos usados nos produtos seriam jogados no lixo e, nas mãos dos artesãos, ganham vida outra vez em peças que encantam pelo colorido e pela criatividade. As garrafas pet, outro item que normalmente descartamos sem pensar duas vezes, também adquirem novas funções que surpreendem quem está acostumado a vê-las como meros receptáculos de líquidos.
        A mão de obra, artesãos de comunidades carentes do Rio de Janeiro, tem visto sua vida mudar depois da Asta, que, com suas centenas de conselheiras divulgando os produtos por meio de catálogo, gera um volume de produção que lhe permite aumentar a renda e ganhar em qualidade de vida. Isso sem falar na autoestima, que fica lá em cima com tantos incentivos e elogios de um público que só faz crescer.
        A produção é artesanal e, na maioria das vezes, mobiliza famílias inteiras para que o volume de encomendas seja entregue. Cada peça é única, não só por ser feita à mão, mas, como os tecidos são doados, as estampas também são sempre diferentes. Cada costura, cada trama, cada forração, cada mosaico deixa à mostra a habilidade, a dedicação, a criatividade e o poder de transformação que fizeram com que cada artesão fosse escolhido para integrar e continuar ampliando essa crescente corrente do bem.













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terça-feira, 10 de abril de 2012

A chuva

        De repente tive a impressão de ter ouvido um barulho de chuva fininha lá fora. Era engano. A chuva caía dentro de mim.
        Se fosse lá fora seria mais fácil. Eu poderia escolher a hora de correr para a chuva e a hora de me esconder. Mas eu não consigo fugir da chuva que cai dentro de mim.



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terça-feira, 27 de março de 2012

Encontrinho bom

        Encontrinho bom é aquele que deixa muito em nós. Assim são os encontros no show room da Asta, em Laranjeiras: empolgantes, inspiradores, instigantes, cheios de produtos diferenciados e gente interessada em fazer a diferença. Definitivamente, a vibe da Asta é contagiante.


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domingo, 18 de março de 2012

O dia seguinte

        Copos com um dedinho de água na mesinha de centro; guardanapos sobre os pratos com farelo de rosca de chocolate que uma amiga gentilíssima trouxe de presente para o lanche; no braço do sofá, o folder de uma peça que um amigo recomendou; DVD que a outra amiga deixou para aquela horinha de folga disputando espaço com os vidrinhos de óleos essenciais. Recordações de uma noite boa, entre curtas, risadas e projetos de futuros passeios. Objetos espalhados de uma casa de verdade, com vida, pulsante, dinâmica, que tem história para contar. Visão que faz sorrir. Vontade de repetir.
        Na casa da capa de revista é proibido se esparramar no sofá, tirar as almofadas do lugar, desfazer os rolinhos de toalhas meticulosamente arrumados no banheiro, fazer guerra de travesseiro, correr e pular. A casa da capa de revista é linda, mas assim, sem um alfinete fora do lugar para manter o clima impecável para a foto, não tem alma. Porque vida de verdade é bagunçada, atropelada, imperfeita, ruidosa e linda, como essa visão do dia seguinte.



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quinta-feira, 8 de março de 2012

Minha homenagem aos homens no Dia Internacional da Mulher

        Contrariando todas as expectativas, vou aproveitar para escrever sobre os homens que contribuem para tornar mais plena a vida das mulheres.
        Aos homens que são pais e mães ao mesmo tempo, por falta/negligência da companheira.
        Aos homens que são pais tão presentes quanto suas companheiras.
        Aos homens que dão flores em datas não especiais porque reconhecem que têm ao seu lado mulheres especiais.
        Aos homens que ganham flores como homenagem por serem especiais.
        Aos homens que usam a força em prol de suas mulheres.
        Aos homens que não se sentem mais fracos quando revelam suas fraquezas.
        Aos homens que usam o lado menino para divertir as mulheres e o lado homem para encantá-las.
        Aos homens que sabem cuidar e se deixam cuidar.
        Aos homens inesquecíveis cujo lugar ninguém jamais conseguirá ocupar.
        A todos os homens adoráveis e dignos de admiração, a minha sincera homenagem.



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terça-feira, 28 de fevereiro de 2012

Para minha mãe, onde ela estiver

         Mãe,
        desde pequena você me ensinou que a única coisa certa na vida era a morte. Que eu precisava me preparar, pois um dia você ia ter que ir embora, como todos nós teremos que ir um dia. Você me ensinou quase tudo o que eu sei. E o que eu não sabia eu sempre pude perguntar. Você sempre tinha resposta.
        Sabe, acabei de receber um e-mail de uma pessoa da qual você gostava muito que diz assim:

"Já tem alguns dias que tenho tido sonhos com você e sua mãe, por isso que estou te mandando esse e-mail. No sonho ela dizia que sentia muito sua falta e me pedia pra ir até você e te dizer isso."

        Sabe o que mais dói? Não poder te responder. Ter perguntas e não poder ouvir suas respostas. Não poder te dar um longo abraço, depois dar um beijo na sua testa e dizer o quanto eu te amo. Não poder sentir tuas mãos enrolando os cachinhos do meu cabelo. Não poder mais passar madrugadas gargalhando com as maiores bobagens ou desabafando os segredos mais impublicáveis. Não poder te ligar para contar como vai a vida. Não poder sentir o cheiro do perfume de rosas que você usava depois do banho exalando da sua pele, cheiro que eu, carinhosamente, chamava de cheiro de mãe. Não poder te contar os meus planos. Não poder ouvir seus conselhos. Eu nunca mais vou poder te ouvir. Eu nunca mais vou poder te ver. Você nunca mais vai poder me ler. Mesmo assim, mãe, eu precisava te falar todas essas coisas. E, como não há mais os seus incansáveis ouvidos de mãe, eu tive que colocar a minha saudade no papel. Espero que, mesmo sem poder me ler, você possa sentir o imenso amor e gratidão que sempre existirão em mim.



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quinta-feira, 9 de fevereiro de 2012

"A gente sai diferente do teatro e do cinema. Sai outra pessoa."

        O que inspirou esse post foi a recente frase de uma amiga que tem compartilhado comigo o prazer de ir ao teatro. "A gente sai diferente do teatro e do cinema. Sai outra pessoa" - disse ela.
        Que poder mágico é esse que nos envolve, nos subtrai a realidade e, quando nos devolve, sempre nos encontramos modificados?
        A arte tem o poder de ampliar nosso mundo interior. O mundo interior e a arte são indissociáveis. É o mundo interior que cria e alimenta a arte. E o mundo interior é onde a arte ecoa. Sem ele a arte não tem propósito; é uma sala vazia.
        Quando esse mundo interior é terreno onde a arte quase não pisa, o encontro com a arte se dá de maneira extasiante, arrebatadora, como a experiência de se ver o mar pela primeira vez; quando se trata de um mundo interior em que a arte transita com intimidade, cada encontro com a arte vai enriquecendo o encontro anterior, pois mais material há para reflexão.
        Por falar em teatro e em experiências transformadoras, assisti recentemente no CCBB à peça Breu e não me saiu da cabeça uma frase. Depois de ser encorajada pela personagem cega a dar alguns passos de olhos fechados, a outra personagem diz: "Eu nunca vou sentir o que você está sentindo".
        Ao término do espetáculo, é emocionante ver que a excelente atriz Kelzy Ecard, de tão imersa na cegueira da personagem, mostra dificuldade em acostumar de novo a vista à claridade na hora de receber os aplausos do público.
        Outra peça, também no CCBB, A Mecânica das Borboletas, com atuação marcante de Otto Jr., aborda a contradição que convive em nós, pois "somos todos capazes, ora de desejar perambular mundo afora sem eira nem beira, ora de ter uma casa, de ter filhos e constituir família". E, instigando a reflexão, fica a espera pela borboleta, a derradeira peça que vai, finalmente, permitir a realização de um sonho.
        Por último, uma peça para a reflexão sobre o casamento: Amor Confesso. A peça começa com um diálogo com o público e vai, aos poucos, revelando a versatilidade dos atores. Ambos fazem papel de homem e de mulher e encarnam tipos bem diferentes, como um caipira e uma mulata. Quanto ao cenário, eles conseguem com duas simples cadeiras — as únicas peças móveis do cenário — todas as espécies de arranjos possíveis.
        Para encerrar esse post, digo que acredito, por toda a sua magnitude e caráter de experiência "pessoal e intransferível", que o encontro com a arte também tenha o poder de promover o tão desejado autoconhecimento. E, se o principal problema do "desencontro" for financeiro, aproveito para dizer que a peça Amor Confesso é gratuita e que as outras duas custam 6 reais cada.
        Então, um bom encontro a vocês!

        *Dedico esse post à minha amiga Claudia Ramos, autora da frase.



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terça-feira, 17 de janeiro de 2012

Enxergando no escuro

        Xi, de repente acabou a luz. Resta a luz da tela do laptop, que estava com a bateria carregada.
        E o que há de tão grandioso na ausência de luz elétrica? Quatro sentidos, que não a visão, esperando sua grande chance para o papel de ator principal.
        Desempenhar qualquer tarefa cotidiana sem luz pode parecer, em um primeiro momento, o mesmo que voltar a usar máquina de escrever ou ligar para casa de um orelhão com ficha. A verdade é que a luz norteia quase todas as nossas atividades e, justamente por isso, sua ausência pode ser uma boa oportunidade para melhor explorar os outros sentidos.
        Quando acabou a luz, meus passos se viram ansiosos por um paliativo para uma simulação da vida normal. Mas minha disposição para, à luz de velas, dar continuidade à rotina era pouca ou nenhuma. Então, resolvi dispensar a vela. E a escuridão dessa última hora me fez aprender algumas lições: quando os frascos de shampoo e condicionador são idênticos, você pode perceber a diferença pelo cheiro e, se seu nariz não ajudar, as texturas não deixam dúvida; separar as roupas por tipos em uma hora dessas faz com que você não precise tatear todo o armário em busca de uma peça; lembrar que existe um tapete no caminho pode fazer a diferença entre continuar com o seu dedo mindinho intacto ou não; meu paladar sabe a diferença entre leite integral e desnatado; meus dedos (não treinados pelos antigos cursos de datilografia) não negam fogo diante de um teclado, pois batalharam (bem trôpegos, é verdade) procurando o caminho para eu escrever esse post.
        Então, ah, que pena, voltou a luz...



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domingo, 1 de janeiro de 2012

Resoluções de Ano Novo

        Tão tradicionais quanto usar roupa branca na passagem do ano, ir à praia oferecer flores a Yemanjá e lançar mão de tudo o que se ouviu dizer que pode dar sorte no ano que chega são as resoluções de ano novo.
        Essa divisão do tempo em dias, meses e anos sempre foi usada para nos dar novo fôlego e alimentar nossas esperanças quanto ao futuro: amanhã eu começo a dieta, mês que vem eu me matriculo no curso de inglês, ano que vem eu consigo fazer aquela tão sonhada viagem... E, assim, vamos dividindo nossos sonhos e metas pelo calendário.
        Quantas resoluções de ano novo são anotadas e quantas realmente se concretizam?
        A tentativa de atrelar nossos desejos de realização pessoal ao relógio pode ser uma grande armadilha em vez de um auxílio disciplinar. O tempo do calendário independe do nosso tempo de vida, sonhos e expectativas. O tempo do calendário nos ignorará solenemente para o resto da vida. O tempo do calendário desconhece o tempo que mais nos importa: o tempo interno.
        Vincular nossas realizações ao tempo do calendário muitas vezes implica em desconsiderar nosso tempo interno. E o tempo certo é quando o tempo das coisas e o nosso tempo interno se encontram.
        Criar mil listas de livros, filmes, cursos e atividades a cumprir e chegar ao fim do ano com todos os checkboxes marcados pode significar persistência e disciplina, mas é preciso tomar cuidado para que isso não seja resultado de inflexibilidade, para que não acarrete em pouco tempo para reflexão, poucos momentos contemplativos, pouco espaço para deixar-se levar pela vida, para ser arrebatado pelo novo, inesperado e inusitado. Se o seu calendário de ano novo estiver completamente preenchido, seu ano não terá espaço suficiente para ser tão novo assim.





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sexta-feira, 4 de novembro de 2011

Para aproveitar o silêncio

        O que você buscava em primeiro lugar quando pensou no roteiro da sua última viagem? Atrações turísticas, boas compras, surpresas para o paladar, belas praias, aconchego no frio? Quase todas as alternativas anteriores?
        E, quando se imaginou naquele lugar, havia muito movimento? Muitas pessoas fotografando algum ponto turístico, gente aglomerada em busca de bons produtos e preços, familiares e amigos reunidos à mesa, disputados lugares ao sol, taças de vinho tilintando com fondue à beira da lareira?
        E se, contrariando as expectativas usuais — as dos turistas que procuram se juntar aos demais —, você estivesse procurando silêncio, aonde você iria?
        Há pouco tempo descobri um lugar cujo silêncio às vezes me parece fruto de um sonho: Rodalquilar, que fica no Parque Natural de Cabo de Gata, ao sul da Espanha.
        Assim como na Espanha a siesta é uma instituição, por aqui o silêncio é levado à última instância — interrompido às vezes pelo barulho de um carro ou pela voz de alguém conversando (como se espera de uma cidade pacata, porém não fantasma) — e, na maior parte do tempo, quebrado apenas pelo barulho do vento, uma constante aqui. Se não fosse o vento, daria para escutar um alfinete caindo — só que na casa do vizinho.
        Uma mudança assim de ares é um ótimo exercício de reflexão sobre nosso ritmo de vida habitual, sobre quanto tempo permanecemos imersos em um barulho que nós mesmos buscamos — o rádio, a TV, o computador — e sobre o quão recompensador pode ser passear na direção contrária que a vida frenética nos impõe, atravessando as mais profundas camadas do silêncio.

















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