No afã de realizar-se,
desfez-se do conhecido,
cotidiano, previsível
Foi abrigar-se no que lhe faltava
Queixosa criatura frustrada
No afã de realizar-se
no inesperado
Perdeu o que lhe sobrava
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Conheci há poucos anos a tristeza de um dia das mães sem mãe. Quem acompanha esse blog sabe que perdi minha mãe em 2011. E, no dia em que ela se foi, só caiu a ficha do que realmente tinha acontecido quando a seguinte frase me invadiu a cabeça: "Nunca mais vou poder abraçar minha mãe." Muito da minha dor naquele dia, hoje e para o resto da vida pode ser expressa por essa frase porque um abraço é a síntese de tudo: do afeto, da proteção, do importar-se, do ter com quem contar, de poder cuidar e ser cuidada.
Acho que daria minha vida por só mais um abraço, daqueles em que simplesmente não existe mais nada ao redor. E, se me fosse pedido só um conselho no dia de hoje, eu diria para as mães: abrace seu filho com a mesma emoção que sentiu quando ele veio ao mundo e você pôde, finalmente, segurá-lo pela primeira vez. Aos filhos, eu diria: abrace sua mãe com a emoção de quem volta de uma longa viagem e avista novamente seu porto seguro.
Aos leitores, peço desculpas pela tristeza derramada. Juntando-me a vocês, recolho, então, a tristeza, e guardo meu abraço para as mulheres que, de uma forma ou de outra, também são como mães para mim. Meu abraço apertado também a todas as mães que dão a vida por seus filhos e aos filhos que, como eu, dão a vida por um abraço de mãe.
Hoje eu só queria me deitar num chão qualquer com um quê de mato em volta e mergulhar os olhos no céu até eles ficarem inebriados de tanto azul.
Assistindo na TV à trajetória dos bem-sucedidos jogadores escalados para a Copa, vejo que há um denominador comum nessas histórias: a paixão pelo futebol desde muito cedo. Natural, pois no esporte é preciso dar tudo de si e, de preferência, começando o mais cedo possível. Mas, e quem já está maduro, querendo recomeçar e não sabe para onde ir? E se esse alguém sequer se lembra de uma grande paixão ou interesse antigo?
Numa época em que é possível aprender algo novo e recomeçar aos 30, 40, 50, 60, 70, 80, 90 anos, com o mundo inteiro à disposição apertando algumas teclas, fica mesmo difícil escolher. E, então, onde procurar a ponta desse novelo quando ela não está assim tão evidente quanto uma vocação precoce?
Todas essas histórias de sucesso que ouvimos diariamente começam do mesmo jeito: com um sonho. E esse sonho pode ser algo bem recente. Não importa o tempo de vida, ele se denuncia. Dentro ou fora de você. No que você se pega pensando quando acorda ou quando vai dormir. No que você diz que não quer morrer sem tentar. No que você só confessa querer para o melhor amigo. No que você vislumbra para os seus filhos porque, secretamente, queria mesmo era para você. No que você viu alguém querido fazendo a vida inteira e achou que nem era vocação, era apenas óbvio demais porque sempre esteve ali. No que você viu alguém começando a fazer ontem e de repente não sai da sua cabeça como uma grande sacada.
Sonhos, uma vez instalados, deixam rastros, olhares distantes, cabeças avoadas, sorrisos no canto da boca. Deixam o gostinho do que seria ou será. Realizações deixam muito mais: deixam o gostinho do que já é e daquilo que você nunca mais esquecerá.