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sábado, 16 de novembro de 2013

Perda

Pendia do parapeito um pano preto.
Partira um parente próximo.
Perderam-se o apetite, a possibilidade, a perspectiva.
Passaram-se primaveras.
Espaçou-se o pranto.
Perdura a provação.
A perda não passa.
A perda é um perene aperto no peito.


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terça-feira, 20 de agosto de 2013

Sem préstimo

Versos rascunhados
numa folha
trancada numa gaveta.

Um escritor que não escreve
para um leitor que não lê.



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quarta-feira, 7 de agosto de 2013

Inspiração

Depois de quintanares
e Chico e Gil caetaneando,
eu inspiro versos,
mas não entoo nem gorjeio,
simplesmente expiro.


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sexta-feira, 12 de julho de 2013

Gente

Queixo pontudo,
nariz comprido,
ombros caídos,
testa grande,
bochechas cavadas,
cabelos em desalinho,
saboneteiras protuberantes,
umbigo engraçado,
barriga proeminente,
seios desnutridos.
O que é isso, mulher?
Isso é gente.
O resto
é exceção,
montagem,
cirurgia
ou maquiagem.


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quinta-feira, 11 de julho de 2013

O telefone

Antes
o telefone
ao lado do sofá
ou na mesa de cabeceira
um adereço

Hoje
o telefone
na mesa de jantar
na pia do banheiro
na frente da gente
na frente dos outros
em todo lugar
na frente de tudo


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terça-feira, 28 de maio de 2013

Instinto de proteção

O homem
namora
para se proteger da solidão;
procria
para se proteger do esquecimento;
sonha
para se proteger da realidade;
mente
para se proteger da verdade;
finge
para se proteger de si mesmo.


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quinta-feira, 23 de maio de 2013

Contestável

Escrever não ofende,
apenas acende
o incontestável
direito de contestar.


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sexta-feira, 10 de maio de 2013

As duas verdades

Há duas verdades:
uma é melodiosa,
límpida,
sedosa;
a outra é estridente,
áspera
e escura.


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domingo, 28 de abril de 2013

Adjetivando

Espirituosos, incautos,
ingênuos, espontâneos,
surpreendentes, inquietos,
ansiosos, otimistas:
adjetivos de nós mesmos.


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quinta-feira, 25 de abril de 2013

Demora

Se demorar, eu espero.
Veja bem, demora tem limite.
Se não tiver hora marcada
para acabar essa demora,
talvez eu mude de ideia.


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terça-feira, 23 de abril de 2013

A locomotiva, a britadeira e o medo

Locomotiva:
massa metálica pesada,
dinâmica,
agigantando-se
diante de mim.

Britadeira:
massa sonora pesada,
dinâmica,
agigantando-se
diante de mim.

Medo:
massa emocional pesada,
dinâmica,
agigantando-se
dentro de mim.


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domingo, 21 de abril de 2013

Pedra bruta

Dar forma ao que aconteceu
é semelhante à ourivesaria:
o material chega às suas mãos como prosa,
elas o entregam como poesia.


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terça-feira, 16 de abril de 2013

Cara pintada

A cara pintada
não denunciava nada.
Nem luxúria, nem noitada.
A cara pintada
era a íntima vontade
de morrer enfeitada.


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domingo, 14 de abril de 2013

Domingo

O ponto de ônibus vazio
A igreja cheia
A garagem cheia
A caixa de e-mails vazia
A casa vazia
A casa cheia
de um silêncio vazio


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quarta-feira, 3 de abril de 2013

Como nascem os poemas - parte I

Poemas nascem
como um espasmo.
Involuntários
como um bocejo,
um espirro.
Poemas
são um piscar de olhos.


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terça-feira, 2 de abril de 2013

Lareira

A árvore que aponta o céu
O tronco que desaba
Paus de madeira
no pé da lareira
fazendo sala
enquanto seu fogo não vem

A lenha desfazendo-se em brasa
A lenha
desfaz
end
o

Brasa
que a fumaça cobriu
e o vento engoliu


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sábado, 23 de março de 2013

Inevitabilidade

Antônia não pode morrer.
Ainda não plantou uma árvore
nem escreveu um livro
nem teve filhos.
Apesar disso,
se Antônia sucumbir,
conforme-se.
Não havia nada
que você pudesse fazer.


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sexta-feira, 22 de março de 2013

Contrassenso

Anita ganhou o Prêmio Jabuti com seu novo livro
— que ninguém abre.
Anita comeu macarrão com salsicha
e publicou no Twitter.
Isso todo mundo sabe.


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quinta-feira, 21 de março de 2013

Insanidade

Risc, risc, risc
faz a ponta do lápis no papel,
arrastando o verso desengonçado.

Meu Deus, ela confessou ainda usar lápis.
Insana!
É como usar máquina de escrever
na era da computação.

O lápis bambeia sobre a linha obstinado.
Risc, risc, risc,
segue o lápis empretecendo uma parte
do branco entre as linhas.

Meu Deus, ela ousa rabiscar alguma coisa
depois de ler Drummond.
Insana!

A culpa é do lápis e da mão.
Desgovernados, perderam a medida e a noção.

A solução? Desfazer o malfeito.
Ei, você não me arruma uma borracha, não?

E a borracha,
desarvorada no cumprimento de sua missão,
cega o lápis,
esse demente.

E a mão?
A mão continua solta.
Avisem a todos que encontrarem
que ela pode atacar novamente.






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Ócio

O ócio
só existe no dicionário.
Na vida real
existe o computador.
Entre o relógio de ponto e o happy hour,
entre gravatas e tailleurs,
o tempo não ocioso se gasta
curtindo no Facebook,
seguindo no Twitter,
maldizendo a banda supostamente larga
e lamentando a extinção
do tempo ocioso.


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