quinta-feira, 20 de setembro de 2012

Aos meus amigos, esses professores

        De repente alguém lhe mostra um recanto mágico na cidade onde você morou a vida inteira e você se sente um turista em sua própria cidade.
        De repente você sente vontade de assistir a um determinado filme ou show, ler um certo autor ou viajar para um local específico simplesmente pela maneira apaixonada como alguém o descreveu.
        De repente você se vê emendando duas sessões de cinema, um filme com uma peça, uma exposição com um filme, uma peça em outra peça e se pergunta por que levou tanto tempo para perceber que cinema não precisa ser só aos domingos, nem peça só de vez em quando, nem ópera de vez em nunca, nem zoológico só quando há criança por perto, nem circo só quando se é criança.
        De repente você entra numa livraria acompanhado para tomar um café e, depois de uma conversa que não para de zunir na sua cabeça, matricula-se em uma nova faculdade na semana seguinte.
        De repente você se vê dando/recebendo presente em um dia comum, sem nenhum motivo aparente, e se pergunta por que todo mundo passa a vida inteira esperando datas especiais para isso.
        De repente você está com medo do voo por ter que saltar do penhasco e alguém te dá um empurrão.
        De repente você está decidido a pular do penhasco e alguém te dá um puxão.
        De repente novas maneiras de sentir, enxergar e viver se chamam simplesmente amizade.



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quarta-feira, 19 de setembro de 2012

Lembrete para impulsivos

Basta um minuto para se jogar fora o que às vezes levou a vida inteira para se construir.


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segunda-feira, 17 de setembro de 2012

Seguro é estar com os pés no chão

A mãe diz ao filho alpinista:
— Filho, seguro é estar com os pés no chão.
E o filho emenda a pergunta:
— E quando você precisa menos de segurança e mais de emoção?


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quinta-feira, 30 de agosto de 2012

Música oportuna

Quando entrar setembro
E a boa nova andar nos campos
Quero ver brotar o perdão
Onde a gente plantou
Juntos outra vez

Já sonhamos juntos
Semeando as canções no vento
Quero ver crescer nossa voz
No que falta sonhar

Já choramos muito
Muitos se perderam no caminho
Mesmo assim não custa inventar
Uma nova canção
Que venha nos trazer
Sol de primavera
Abre as janelas do meu peito
A lição sabemos de cor
Só nos resta aprender

Já choramos muito
Muitos se perderam no caminho
Mesmo assim não custa inventar
Uma nova canção
Que venha trazer
Sol de primavera
Abre as janelas do meu peito
A lição sabemos de cor
Só nos resta aprender

(A música Sol de Primavera, que deu nome ao terceiro álbum de estúdio de Beto Guedes, lançado em 1979, foi composta por Beto Guedes e Ronaldo Bastos).



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sexta-feira, 24 de agosto de 2012

Aparências

        Parou em um boteco. Nenhum atendente lhe deu atenção. Uma moça encostou no balcão e pediu um suco. O atendente distraiu-se por um instante com a tatuagem no dorso da mão que ela tentava esconder puxando a manga da blusa.
        — É uma borboleta?
        — Não. Um elefante.
        — A senhora pagou para um tatuador fazer um elefante parecer uma borboleta?
        — Não. Eu pedi um elefante, mas todo mundo acha que é uma borboleta.
        — Puxa, que azar, hein?
        — Azar, nada. Foi sorte.
        — Sorte?
        — É. Sorte de me livrar dele.
        — Dele quem? Do elefante?
        — Não, de me livrar do ex. O tatuador era namorado na época. Eu não queria fazer a tatuagem, mas ele acabou me convencendo. Na véspera tivemos uma briga horrível. Ele deformou o elefante só de raiva.
        — Toda vez que a senhora olha para a borboleta se lembra da briga?
        — Elefante. Para mim sempre vai ser um elefante.
        O homem que assistia a tudo, até então calado, bateu com a chave de casa no vidro do balcão.
        — Estou há 5 minutos esperando alguém me atender, e todo mundo fica para lá e para cá sem olhar para a minha cara. Para piorar, esse cidadão ainda fica perdendo tempo com borboleta.
        A moça apertou os lábios.
        — Elefante. E-le-fan-te. Quer saber? Nem provei o suco e já não gostei. Pode cancelar o pedido.
        — Mas, moça, o suco já está pronto.
        O homem olhou para o copo e guardou a chave no bolso.
        — Me passa o suco. Essa pizza aí está quente?
        — Está morninha.
        — Então, me vê quatro do que estiver mais quente e embrulha para viagem. Minha mulher está esperando em casa e vocês já me fizeram esperar mais do que devia.
        Bebeu três goles do suco e afastou o copo. Pegou um punhado de moedas no bolso e colocou no balcão. Saiu sem esperar o atendente terminar de conferir o dinheiro.
        Foi caminhando apressado com o embrulho na mão, olhando os ônibus que passavam quase vazios. Segunda-feira à noite, a cidade ainda carregava a preguiça do domingo.
        Viu seu ônibus passando. Fez sinal. Não era ponto, e o motorista não parou. Parou para investigar no bolso se tinha dinheiro trocado para o ônibus. Remexeu no bolso da calça e percorreu com os dedos as notas do pagamento do mês. Puxou a primeira e olhou: uma nota de dez. Colocou-a no bolso da camisa para pagar a passagem.
        Notou que o ônibus que passava ainda não era o seu. Ouviu um assovio a uns passos de distância. Devia ser alguém fazendo sinal para o motorista, mas o ônibus não parou. Mais uns minutos, outro assovio. Nenhum ônibus adiante. Uma sombra se aproximava. Apertou o passo. Olhou novamente para a sombra, que não parecia ser alguém corpulento, mas uma protuberância naquela mancha preta chamou sua atenção.
        Começou a suar frio. Teve vontade de correr, mas apenas acelerou o passo. A sombra acompanhava o seu ritmo. Novo assovio. Definitivamente, era com ele. Gelou. Nada de ônibus. Nada de gente por perto. Nada de coragem de correr. Finalmente, a sombra o ultrapassou. Sua cor havia escoado. A sombra era um menino com uma garrafa na mão que, de súbito, pôs fim ao tormento:
        — Tio, me dá um cocrete?


Postado também no blog Nós da Escrita.


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quarta-feira, 22 de agosto de 2012

Pluralidade - Ne me quitte pas














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domingo, 5 de agosto de 2012

Lagoa Rodrigo de Freitas

Domingo, dia de descanso,
não para os esportistas.
Bicicletas alugadas
zanzam
em não sei quantas voltas
desvairadas.
Os pedalinhos se julgam
os senhores da lagoa
até surgir uma canoa
e lhes roubar o lugar.
A árvore-balanço
observa o menino suspenso.
E o cão, logo embaixo,
pensando que é alpinista,
tenta vencer a árvore.
Frustrado, faz as pazes
com o chão.
A menina aponta
o coco gelado,
o milho cozido,
o amendoim açucarado.
A mãe, com toda a paciência,
explica a diferença
entre carrinho de pipoca
e merendeira.
A moça de preto contabiliza
um sem fim de passos.
Mal come,
apenas bebe — só água.
A academia,
a dieta
e a balança
governam seus dias.
Não há trégua.
Vai ao seu lado,
igualmente cansado,
o cachorro da moda
de ontem à tarde.
Domingo, dia de descanso.
É preguiçoso o acordar
e demorado o café.
De tão atrasado o almoço,
por um triz, desavisado,
não esbarra no jantar.


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domingo, 15 de julho de 2012

Estamos desaprendendo?

        Quando vejo pessoas guardando papéis de bala no bolso ou na bolsa, assentos reservados aos idosos no metrô vazios nos horários de maior movimento e pessoas recolhendo os malcheirosos rastros de seus animais após os passeios, surge um sorriso de alívio no rosto. No entanto, basta observar um pouco mais para o sorriso dar lugar à testa franzida. Crianças se debatendo aos gritos com os pais pelas ruas, motoristas ignorando faixas e pedestres, pedestres ignorando sinais fechados, motoristas e pedestres ignorando as dificuldades dos idosos, pessoas acompanhadas que não tiram os olhos nem os dedos do celular por horas a fio, pessoas gritando ao celular, ignorando os ouvidos alheios. Quando/por quê perdemos o rumo quando o assunto é o outro?
        Lemos, fazemos cursos, assistimos a palestras. Queremos lazer, queremos qualidade de vida, queremos progredir. Estamos atentos a tudo o que diz respeito a crescimento pessoal. E os outros? Onde ficaram os outros?
        E quando os outros são os bem próximos? O quanto estamos contribuindo para a felicidade deles? Estamos dando ouvidos às necessidades dos nossos parentes e amigos?
        E as crianças? Estão sendo preparadas para enxergar os outros? Afinal, quando pensamos em família, o que queremos não é ter filhos, netos, sobrinhos e afilhados que aprendam as lições básicas de convivência, que tenham a ensinar para a sua geração e para as gerações futuras?
        Que bons hábitos adquirimos e que maus hábitos se instalaram nos últimos tempos? Que lição julgávamos aprendida e se perdeu sem nos darmos conta?
        Com certeza avançamos vorazmente nos quesitos educação ambiental, ciência e tecnologia. Entretanto, o material humano, que determina os rumos de tudo isso, caminha na contramão da evolução quando se mostra, por exemplo, incapaz de dizer "bom dia", "com licença", "por favor" e "obrigado".
        Quando o assunto é civilidade, estamos, apesar de tanta teoria, desaprendendo na prática?



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quinta-feira, 12 de julho de 2012

Escrever é um salto sem rede

        O que você escreveria se tivesse certeza de que ninguém leria?
        Que medo é esse que paralisa a escrita? Medo da exposição? Das críticas? De não achar o próprio texto bom? De os outros não acharem o texto bom? Medo de o texto revelar os próprios medos?
        A boa notícia é que há um excelente curso em andamento para ajudar a exorcizar esses fantasmas. Quem ministra é Marcia Zanelatto. Marcia é escritora, roteirista e poeta, com textos premiados pela Academia Petropolitana de Poesia, Instituto Ford, Centro Cultural Banco do Brasil, entre outros. Segundo Marcia, o curso pode valer muito a pena para quem se arriscar.
        Para começar a escrever, Marcia diz que é preciso perder o pudor; deixar de lado a autocensura; libertar-se do medo de revelar sua vida interior; despojar-se da necessidade de estar dentro de um cânone.
        O que aconteceria se essas barreiras internas deixassem de existir? No mínimo, o ganho seria uma dose extra de autoconhecimento.
        Ficou com vontade de se aventurar? Então, vou deixar aqui mais algumas considerações de Marcia para ajudar a espalhar essa semente:
        "Escrever é uma oportunidade de rever sua relação com suas próprias dores e medos".
        "A diversidade é alimento para a nossa criatividade".
        "A gente acha que escreve com a mente. A gente escreve com o corpo. A gente escreve com a intuição".
        "O mistério da escrita se desvela no ato de escrever".
        "A sua criatividade está louca para encontrar um elemento externo no qual ela possa grudar".
        Para os "aventureiros", o POP fica na Rua Conde Afonso Celso, 103 - Jardim Botânico - RJ.
        Boas descobertas!



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terça-feira, 3 de julho de 2012

Peça A descoberta das Américas

        À semelhança da contação de histórias, A Descoberta das Américas é um espetáculo onde há espaço para a imaginação. Não há cenário. As luzes permanecem inertes. E o público fica completamente embevecido durante 1 hora e meia.
        Fui assistir à peça por indicação de um amigo, que me contou que aquela era a sua quinta vez. A irmã estava assistindo à peça pela sétima vez. Eram bons prenúncios de uma apresentação incomum.
        Soa a campainha. Logo os desavisados percebem o tom da peça: o ritmo frenético. Uns devem estar apostando com o amigo do lado que o ator não conseguirá sustentar aquele arrebatamento até o fim do espetáculo. Mas quem está em cena é Julio Adrião, que adaptou o texto de Dario Fo com Alessandra Vanucci, ganhou o prêmio Shell de melhor ator em 2005 e foi elogiado por Bárbara Heliodora.
        Ele é Johan, que embarcou em uma caravela de Cristóvão Colombo. Aliás, não só Johan. É também a caravela, os índios, os animais e tudo o mais. Com expressões corporal e vocal precisas, seu corpo parece talhado para a peça. E a peça o talhou — já foram mais de 500 apresentações com uma atuação de um furor magistral.
        Narrador e personagem, Julio Adrião é tudo (em todos os sentidos) em cena — tudo o que se pode imaginar e muito mais.
        A Descoberta das Américas está em cartaz até 6 de julho (só essa semana!) no Teatro Serrador, que fica na Rua Senador Dantas, 13 - Cinelândia - RJ.
        Saiba mais sobre a programação do Teatro Serrador em http://alfandega88.com.br/teatroserrador/


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